Uvaia – Fruta Nativa, delicada e aveludada

Continuando a série “Frutas Nativas da Mata Atlântica Pouco Conhecidas ”, nada mais coerente com as épocas de festas de fim de ano do que escrever sobre a uvaia (Eugenia pyriformis Cambess).

A uvaia, também conhecida como ubaia, uvalha, uvaieira, é outra fruta, que assim como a cereja-do-rio-grande, goiaba, araçá, jabuticaba, dentre tantas outras, são representantes da família MYRTACEAE, que é umas das famílias com mais representantes de espécies frutíferas no Brasil.

Nativa da Mata Atlântica, a uvaia está presente nas regiões Sul e Sudeste; muito suculenta e que lembra o gosto da uva logo na primeira mastigada (na minha opinião), é, porém, um pouco mais azedinha (mas um bom azedinho).

Uvaia com 4 anos de vida.

Rica em vitamina C, pode ser consumida ao natural, tarefa que pode não ser tão fácil: será preciso competir com a aviafauna, que é mais rápida e não deixa muito para nós humanos. Também é muito utilizada para fazer suco, geleia, compota, sorvete, doces em geral, licores, caipirinhas e bases para molhos e vinagres. Por tudo isso já é considerada uma fruta importantíssima para o sustento de muitas famílias.

Além da furta ser gostosa e suculenta, é linda, variando da cor amarelo para o alaranjado, possui indumento na parte externa da casca (tipo de pelos), o que a deixa com aspecto aveludado, macio e muito delicado.

O seu uso no paisagismo é muito comum, uma vez que seu tronco apresenta um tom que vai do laranja ao avermelhado quando descasca (característica da família myrtaceae). É muito atrativa, podendo se ramificar desde a base ou após atingir uma certa altura, trazendo beleza para os jardins.

Por raramente ultrapassar os 15 metres de altura, é indicada plantar nos quintais, calçadas e pomares., as raízes não prejudicam a calçada, desde que tenham uma profundidade de berço considerada.  Quem quiser utilizar em projetos de reflorestamento, saibam que essa espécie é indicada para áreas alagadiças, contanto que o berço seja feito na forma invertida (como se fosse um morro de terra), isso irá proteger as raízes na fase inicial do plantio.

Sobre as informações morfológicas: as folhas são pequenas, simples, opostas, elíptica (que são mais largas na parte central), além de serem aromáticas. As flores são brancas, com pedúnculos (cabinho que sustenta a flor) axilares, ou seja, localizadas na junção entre o caule e a folha. O seu tronco descama e apresenta um tom que varia do alaranjado para o avermelhado. O fruto, que tem formato de arredondado a piriforme, mede de 2 a 5 cm de diâmetro, pode apresentar mais de uma semente.

Semente de uvaia.
Fruto da uvaia.

Vamos valorizas nossas frutas Nativas. Abaixo seguem as informações para quem gostou e deseja plantar muitas uvaias por ai!!!

  • Solo: Rico em matéria orgânica (esterco curtido/húmus) e com boa umidade. Entretanto, germina também em solos pobres como os argilosos, desde que, posteriormente, seja transplantada em solo rico em matéria orgânica.
  • Semente: Colher quando o fruto estiver bem maduro (os de caídas são ideais), despolpar (aproveite e coma a fruta) e plantar a semente direto em tubetão, saquinho ou vaso. O ideal é plantá-la imediatamente, não sendo recomendado o seu armazenamento, pois a semente não tolera perda de umidade. Após a plântula apresentar altura mínima de 50 cm, poderá plantar no local definitivo.
  • Germinação: 40 a 60 dias após o plantio. Existem estudos que indicam que mesmo com a semente danificada (partida) as plântulas germinaram normalmente.
  • Sol: Pleno ou meia sombra.
  • Crescimento: de moderado a lento (Secundário inicial). Geralmente leva de um a dois anos para atingir o primeiro metro.
  • Frutificação: Frutifica de 1 a 2 anos, sendo considerada uma frutificação precoce.
  • Altura: 5-15 metros,
  • Distribuição: Sul e Sudeste do país, natural da mata atlântica.
  • Época: conforme a região onde situa-se, floresce e frutifica em diferentes épocas do ano, mas geralmente a floração inicia nos períodos de agosto a dezembro. O que tenho observado em algumas cidades do estado de São Paulo, é que floresce de agosto a setembro e frutifica de outubro a dezembro.
Detalhe do galho e das folhas.

 Referências:

  • Mattos, J. R. Myrtaceae do Rio Grande do Sul. Roessléria 6, n. 1, p. 163-167, 1984.
  • Silva, C. V.; Bilia, D. A. C.; Maluf, A. M.; Barbedo, C. Fracionamento e germinação de sementes de uvaia (Eugenia pyriformis Cambess. – Myrtaceae). Revista Brasil. Bot., v. 26, n. 2, p. 213-221, 2003.

 

Você conhece o Araçá-Piranga?

Se não conhece deveria conhecer, pois além de delicioso, é um fruto nativo da Mata Atlântica. O araçá-piranga (Eugenia leitonii) será o primeiro da série: “Frutas Nativas da Mata Atlântica Pouco Conhecidas”

A Eugenia leitonii é uma espécie pertencente à Família Myrtaceae, de grande importância em nosso país, tanto pela sua enorme quantidade de árvores frutíferas, quanto por ser a quarta maior família em número de espécies. Sobre as diversas frutíferas dessa família, além dos vários tipos de araçás, temos também as mais conhecidas, como as jabuticabas, jambolão, pitangas e, claro, a goiaba. Aliás, goiabão é outro nome popular dado ao araçá-piranga, dada sua semelhança com a goiaba em termos de forma e tamanho.

A colheita do araçá-piranga ocorre nos meses de fevereiro e março, com seu ápice no mês de março. É importante consumi-la bem madura, para evitar a sensação de amargor na língua. Nunca colha tudo; sempre deixe uma parte para a avifauna, responsável em perpetuar e propagar a espécie.

Além de possuir um fruto delicioso, o araçá-piranga é indicado para o paisagismo, pois surpreende pela beleza de suas folhas verdes escuras e principalmente, por seus galhos e tronco de cor ferrugem; é um espetáculo à parte. A intensidade da cor ferrugínea é determinada pela época da frutificação e intensidade da luz, que não precisa incidir diretamente sobre a árvore, visto que é uma espécie de crescimento lento e de interior de mata.

Mesmo com todas essas características, o araçá-piranga é extremamente raro nas matas devido à grande devastação do seu habitat natural. Por essa razão, abaixo seguem as especificidades da espécie para quem quiser plantar e ajudar a aumentar a quantidade de indivíduos por esse Brasil.

  • Solo: Rico em matéria orgânica (esterco curtido/húmus) e com boa umidade.
  • Semente: Colher quando o fruto estiver bem maduro, retirar a casca e plantar a semente direto em Tubetão, saquinho ou em vaso. Após atingir altura mínima de 50 cm, poderá plantar no local definitivo.
  • Sol: Pleno ou meia sombra.
  • Germinação: Demora em média 3 meses para germinar após o plantio.
  • Crescimento: Lento (Secundário Tardio).
  • Altura: 8-15 metros.
  • Distribuição: Sudeste e sul do país, natural da mata atlântica.

Referências:

Lorenzi, H. 1992. Árvores Brasileiras: manual de identificação e cultivo de plantas arbóreas do Brasil. Instituto Plantarum Ltda. Nova Odessa, São Paulo vol. 1, 398 p.

Giulietti, A. M; Harley, R. M; Queiroz, L. P. D; Wanderley, M. D. G. L; Berg, C. V. D. Biodiversidade e conservação das Plantas no Brasil. Megadiversidade. Bahia, v.1, 2005.

Detalhe do tronco ferrugíneo. Fonte: própria.
Detalhe das folhas. Fonte: própria.
Fruto maduro em destaque. Fonte: própria.

Mangaba

Mangabas trazidas pelo meu pai da safra de novembro de 2015.
Mangabas trazidas pelo meu pai da safra de novembro de 2015.

O que seria de nós adultos se não fossem as nossas referências da infância?

Como já falei aqui no post anterior, aproveitei bastante a minha fase de criança com diversas brincadeiras de rua. Além das brincadeiras, os cheiros e gostos também foram importantíssimos para minha formação, e um cheiro e gosto que amo e me é familiar vem da fruta mangaba. Eu conheci essa fruta através do meu pai quando estávamos de férias na casa da minha avó paterna, na cidade de Estânica município do estado de Sergipe.

A árvore mangabeira (Hancornia speciosa) é nativa do Brasil e natural da Caatinga, Restinga e do Cerrado, sua distribuição se concentra mais na região do Nordeste. No entanto, ela é encontrada em maior quantidade na terra do meu Pai, no Estado do Sergipe, tanto é que a árvore mangabeira é considerada símbolo do Estado. Diversas cidades de Sergipe obtêm suas rendas com a colheita da fruta que ocorre de novembro a junho. Do fruto podem ser produzidos: sucos, bolos, licores, vinhos, xaropes, geleias, mousses, pudins, sorvetes e o que sua imaginação criar.

Não é só porque me remete a infância que eu gosto tanto da mangaba, ela é realmente divina, fato é que seu nome em tupi guarani significa “coisa boa de comer”. Ela tem um gosto doce com um toque azedinho no final. Fora o sabor incrível, essa fruta é riquíssima em vitamina C e se já não bastasse tudo isso, o látex que é produzido do tronco e das folhas da árvore da mangaba tem poderes medicinais como na melhora de fraturas, herpes, Tuberculose e da úlcera.

Como vocês podem ver na foto acima, o fruto da mangabeira é amarelinho com manchas vermelhas. As mangabas podem ser colhidas de duas formas. A primeira é direto do pé, devendo-se as enrolar em um jornal e aguardar dois dias, aproximadamente, para o seu amadurecimento e consumo. A segunda forma é as colher direto do chão, sendo chamadas de “mangabas de “caída”; essa forma de colheita é a mais valorizada e gostosa, pois depois de quatro horas já está molinha e pronta para o consumo. Eu presencie na infância uma “chuva de mangaba“ e foi uma das coisas mais lindas que eu vivi.

Quem quiser plantar a árvore da mangaba deve saber que a semente tem que estar fresca e molhadinha, ser plantada em solo arenoso e bem drenado. Como os solos arenosos são pobres em nutrientes não se faz necessário adubar e tão pouco irrigar com muita frequência, pois essa espécie é adaptada a locais muito quentes e com escassez de água. Após cinco anos do plantio ela começará a dar frutos.

Bom pessoal, é isso, espero que todos experimentem a mangaba quando visitarem Sergipe ou outros estados do Nordeste.

Obs.: as informações da fruta mangaba foram fornecidas pelos meus familiares de Estância-SE e por consulta a dados de bases científicas.

Inga laurina (ingá branco)

Árvore Inga Laurina

Minha infância foi maravilhosa, muitas brincadeiras de rua, minha querida queimada e claro também teve a brincadeira de subir nas árvores.

Eu tinha uma em especial, ela não era e ainda não é muito comum, mas a minha primeira e querida árvore foi o ingá branco (Inga laurina). Curioso é que o ingá não é o fruto mais comentado por aí, o mais normal é escutar as pessoas falarem que na sua infância apanhava frutas como: manga, jaca, fruto do conde, carambola, entre muitas outras.

Onde morei por quase toda a minha vida não tinham essas árvores na rua, mas tinha o ingá. O fruto do ingá é muito atrativo para os morcegos, mas para nós, seres humanos não muito.

Não sei o que me fez gostar do ingá, talvez pelas sementes serem ensopadas, envoltas por uma deliciosa polpa, que lembra um algodão molhado.

O ingá é uma árvore muito coringa, aguenta alagamentos e está presente em diversos ecossistemas brasileiros, como: Floresta Atlântica, caatinga, cerrado e na restinga.

Apesar das literaturas descrevem a frutificação do ingá branco entre os meses de novembro a março, sabe-se que a frutificação depende de fatores externos, como temperatura, chuvas e qualidade do solo. Mas se quiser experimentar o ingá, busque entre os meses de novembro a maio que será garantido.

Na minha rua era sempre no mês de maio, eu e a criançada subia nas árvores do ingá branco, e saíamos de sacolas cheias. E mesmo assim, sobrava muitas para os morcegos. É por momentos simples como esse, que me fazem lembrar a minha infância com muito carinho.

Por fim, conte-me através do e-mail contato@pitangaamarela.com.br, qual é a sua árvore?

Árvore: a razão da nossa existência

Árvore: a razão da nossa existência

Sabe o que nos mantém vivos?

A fotossíntese! É isso mesmo, pois é ela que produz os açúcares e libera o oxigênio como subproduto essencial para a vida de todos os seres, inclusive o nosso. É claro que as plantas não são importantes somente por esses dois fatores. Há outros como alimento, vestuário, madeira, medicamento, a própria água e uma infinidade de outras coisas.

Cabe ressaltar que não são só as plantas que fazem a fotossíntese, mas também as algas e algumas bactérias, porém em proporções muito menores.

Tudo que as árvores são e nos fornecem hoje é resultado de um longo processo da evolução. Sobre esse processo, acredita-se que todos os seres vivos vieram de um único ancestral comum, e que possivelmente tratava-se de um micróbio com DNA da mesma forma como acontece até os dias de hoje com os fungos, plantas ou animais.

As plantas iniciaram no ambiente aquático (assim como muitos dos seres vivos) e com o passar de milhares de anos foram migrando para o ambiente terrestre, possivelmente porque a água limita a penetração da luz e a concentração de CO2, fatores importantes para a fotossíntese.

Entretanto, a mudança de ambiente não foi uma tarefa fácil, afinal, na água as plantas não necessitavam de estruturas, ao contrário do ambiente terrestre, que exigiu adaptações. Por exemplo, uma estrutura para fixar-se ao solo possiblitando a captura de água e sais minerais, e outra aérea para a realização da fotossíntese. A partir dessas adaptações, foram surgindo uma complexidade de estruturas, como a ramificação dos galhos, um tronco principal para o transporte dos sais minerais, folhas e muitas outras que estão até hoje em constante evolução.

As primeiras a migrarem para terra foram certamente as briófitas, conhecidas por muitos como musgo, aquele verdinho fixado nas rochas que já fizeram os mais desatentos escorregarem e caírem. Muita gente não sabe, mas ao analisarmos as briófitas com uma lupa por exemplo, vemos uma verdadeira floresta, com os seus talos, folhas e suas estruturas fixadoras. Após as briófitas/musgos, podemos dizer que vieram as pteridófitas sendo representadas pelas belas samambaias, gimnospermas tendo como um de seus representantes os pinheiros e por último as angiospermas representadas pelos espécimes que produzem flores e frutos.

É extraordinário que dentro de uma floresta tropical, existe todas as etapas desta evolução, e o Brasil mesmo sendo a maior diversidade do planeta terra não trata de forma respeitosa e zelosa nossos ecossistemas.

Depois desta pequena introdução sobre a evolução da plantas, espero que o proverbio “quando a última árvore tiver caído, quando o último rio tiver secado, quando o último peixe for pescado, o homem irá perceber que dinheiro não se come (Greenpeace)” não se torne realidade e possamos enxergar a importância da natureza e das árvores antes que seja tarde.

Viva o dia da árvore!

Referências

  • H. Lorenzi & E. G. Gonçalves. Morfologia Vegetal. Editora Plantarum. Segunda Edição, 546p.
  • P. H. Raven; S. E. Heichhorn; R. F. Evert. Biologia Vegetal. Editora Guanabara Koogan. Oitava Edição, 876p.